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A verdade incoveniente do Design

By 15 de setembro de 2011 No Comments

“Minha dor é perceber, que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. Mas é você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem”

Esta parte da letra da música “Como nossos pais” composta por Belchior e interpretada pela lendária voz de Elis Regina, reflete o sentimento das palavras que estão escritas neste texto.
Percebi que existem algumas pessoas que acham polêmicos e até mesmo ácidos os textos que escrevo sobre o design brasileiro. Na realidade, esta é a intenção. Precisamos de mudanças, de evolução. Fazer e pensar como sempre fizemos é uma fórmula contraditória para conseguir dar um próximo passo nesta atividade fundamental para a economia de nosso país. Sou apaixonado por esta área e não estou satisfeito com o atual cenário do design no Brasil. Esta sensação leva a uma inquietação de querer dialogar, compartilhar informações, idéias que podem evoluir a atividade causando uma reflexão coletiva, e com isso colaborar para provocar mudanças necessárias.
Mudanças, esta palavra causa arrepios para pessoas que não tem o cromossomo inovador em seu DNA. A mudança ou no mínimo ouvir alguns fatos, sempre gerará desconforto, mas é um mal necessário. A história da Bauhaus é maravilhosa e a influência da escola de Ulm no Brasil foi muito importante. Não podemos nos esquecer desta história, mas já foi, não podemos viver no passado. Nem simplesmente adotar definitivamente um modelo/sistema usado em outro país, diferente de nossa cultura. Se o design tem que respeitar algo, este algo se chama autenticidade. O Brasil é um país peculiar e somado as revoluções sociais constantes, não refletir, mudar e evoluir o design em nosso país é o mesmo que regredi-lo.
Mas como ser inovador, dar um passo para a evolução do design na nação verde e amarela, se não se faz autocríticas? Então quer dizer que não precisamos mudar, que está tudo certo?  Há tempos venho alertando para a regressão constante de competitividade da indústria nacional, causado pelo fenômeno chamado Desindustrialização. Este processo faz com que se importe e consuma mais produtos manufaturados (com valor agregado) do que os produzimos. Isto desloca o capital nacional que gera emprego e renda para outros países. A questão da Desindustrialização ser um fato no Brasil, serve de indicador para percebemos que algo está desalinhado na dinâmica econômica. Empresas estão demitindo e até fechando as portas por causa desta nossa incompetência patriótica. Estamos consumindo mais produtos (design) de outros países do que de nós mesmos.  E sabendo que o design, sendo uma ferramenta acessível de inovação e que pode ajudar as empresas nacionais a reverter esta situação, não consigo ficar quieto, porque “VERÁS QUE UM FILHO TEU NÃO FOGE À LUTA”.
Agora pergunto: é polêmico ou ácido querer o melhor para o nosso design, despertando, chamando a atenção, alertando para fatos que estão prejudicando não só a atividade, mas toda economia nacional? Sei que não sou o único a não querer ser sufocado e engolido pelo dragão chinês. Para quem não sabe a China está atropelando a maioria dos países no quesito inovação e design. O curso de design já é um dos mais populares no país asiático. Hong Kong/China já é quarto país mais inovador do planeta segundo o Índice Global de Inovação 2011 da instituição de ensino de negócios e de pesquisa INSEAD. Lembrando que os famosos norte-americanos(EUA) estão em sétimo lugar. E o Brasil? O Brasil está em 47º. Sem contar que a China tem como centro de sua estratégia de expansão a inovação e design, com investimento trilionário do seu Plano Quinquenal (2011-2015).
Sinceramente, não vou ficar parado. Quando comento que o design pode não ser uma profissão e sim um estilo de vida, não estou colocando a função como despreocupada ou irresponsável neste tumultuado cenário. Muito pelo contrário, a atividade exige até mais compromentimento e envolvimento do que muitas famosas e importantes profissões. Vai além das horas do período comercial de trabalho, devido a responsabilidade de contribuir para a melhoria da qualidade de vida humana. O verdadeiro designer não sossega enquanto não encontra alternativas para resolução de problemas que aparecem no dia-a-dia em forma de projetos.
Em pleno século XXI, período que todos exaltam a alta tecnologia, as inovações e a constante quebra de paradigmas, ainda se observa um padrão medieval de raciocínio quando se descartam idéias, novos conceitos ou no mínimo o exercício da reflexão, o pensar. Ainda veremos muitos Galileu Galilei sendo postos na fogueira das mentes arcaicas. Estou longe da sapiência e comparação com Galileu, só usei esta metáfora para mostrar que muitos, até mesmo dentro do mercado de design, ainda relutam em se abrir para o novo.
O mundo continua com a síndrome do disco arranhado, repetindo os mesmos pensamentos e atitudes. Precisamos de renovação, do novo, de pessoas que queiram mudar positivamente e provoquem as mudanças que toda a sociedade precisa. Temos que criar uma nova canção adequada aos novos tempos. Para isso não tem como não ser ousado, ser inovador, um agente de mudanças, ser designer. Não perderia tempo escrevendo este texto se não acreditasse no potencial de nosso design e se não quisesse ajudar à refletirmos sobre o que podemos fazer para a sobrevivência e expansão do design brasileiro. Só estou tentando fazer minha parte. E você, o que pode fazer?
Abraços,
Eduardo M. Borba

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